Sobre este blog

Bem vindos! Demorei um pouco para ter coragem de iniciar este blog. Ainda não estou completamente confortável com a ideia. Sinto-me exposta. Quem me conhece sabe que nunca fui de guardar muito minhas impressões e sentimentos. Sempre fui muito transparente. Muito mais do que gostaria, pelo menos.

Acontece que apesar de ter melhorado muito nos últimos tempos, ainda tenho certa dificuldade em expressar meus pensamentos mais profundos numa conversa, por exemplo. Falo com confiança e sem pudores sobre assuntos que entendo bem (assuntos profissionais principalmente). Porém quando se trata de expressar ideias e sentimentos, eu tenho tendência a ser pouco clara. Os pensamentos se confundem com os sentimentos e o resultado é uma salada que raramente reflete o que eu gostaria de dizer.

Daí a vontade de escrever. E escrever é um ato essencialmente público. Por isso resolvi compartilhar. Colocadas no papel (ou na tela) as ideias se encadeiam melhor. Fazem mais sentido. Fluem melhor.

Espero que funcione. E se esses pensamentos puderem ser úteis a mais alguém além de mim, tanto melhor.

Ass. Clarissa

Sobre a Pediatria

A pediatria é uma área extremamente abrangente da medicina. Engloba todo o processo de crescimento e desenvolvimento de um ser humano desde o momento do nascimento até sua transformação em adulto.

Dentro dela, a puericultura é o eixo central de onde se ramificam todas as outras especialidades clínicas. Digo isso porque é do acompanhamento contínuo desse ser humano em desenvolvimento que surgem as necessidades específicas para correção de alguns detalhes que possam comprometer este processo em algum momento.

Cabe ao pediatra que faz o seguimento de puericultura antever possíveis desvios e combater os contratempos que possam atrapalhar o pleno desenvolvimento daquele ser humano. Em resumo, a puericultura é essencialmente a definição da medicina preventiva. Consiste basicamente em garantir que a criança tenha condições de desenvolver plenamente seu potencial, seja ele qual for.

É na infância que devemos construir bons hábitos de saúde, higiene, alimentação, atividade física, entre outros que nos serão úteis ao longo da vida para prevenir doenças e hábitos deletérios para a saúde. A função do pediatra é orientar e guiar os pais nessa difícil e importante empreitada que é ser responsável pela formação de um ser humano pleno, que consiga se inserir na sociedade e ser funcional.

E temos que lembrar que muitos pediatras também são pais/mães, o que nos coloca ao mesmo tempo dos dois lados da equação – e se por um lado pode ser confuso porque raramente os filhos fazem aquilo que os livros ensinaram, por outro lado nos dá a oportunidade de vivenciar as mesmas angústias e dúvidas de todos os pais.

Assim, a pediatria é mais que uma ciência. É uma arte em constante mudança, pois as crianças de hoje são diferentes daquelas de nossa geração. Necessita adaptação contínua pois as doenças que nos preocupavam há vinte anos atrás já não são as mesmas que nos afligem hoje (graças aos avanços na área de imunização e vacinação) e precisamos seguir (re)aprendendo a ser pediatra com cada criança que acompanhamos. E sei que sou suspeita para falar, mas não há nada mais lindo do que testemunhar essa transformação. Cada novo aprendizado, cada nova etapa vencida, cada contratempo superado faz valer a pena todo o esforço e dedicação. E tenho certeza de que falo em nome de todos os meus colegas de profissão. Afinal, eu sempre digo e repito: apesar de todos os percalços da profissão, ainda não conheci nenhum pediatra infeliz.

Sobre Divórcio e Filhos

Nenhum filho merece o peso de sustentar um casamento infeliz. É exatamente nisto que acredito.

Acredito também que todos temos o direito de buscar uma relação que seja satisfatória para ambos. A vida é curta. E somos humanos. Muitas vezes nos enganamos, erramos, nos arrependemos e aprendemos. E tentamos de novo. Essa sempre foi a realidade para nossa espécie. E qualquer artista ou atleta de ponta sabe com quantos erros e quedas se faz um artista virtuoso ou um campeão. Sem falar em nossas carreiras, trabalho, relações interpessoais. O ciclo é sempre tentativa-erro-nova tentativa. Não que tentativa-acerto não seja possível ou não ocorra nunca; mas além de ser muito raro, não nos ensina nada sobre a vida ou sobre a necessidade de persistir tentando.

Por que então seria diferente no que diz respeito aos relacionamentos amorosos? Quem tem o privilégio de já ter certeza de tudo o que quer da vida enquanto ainda muito jovem? E se cavarmos um pouco mais, quem tem o nível de autoconhecimento necessário para fazer escolhas definitivas ainda nos seus vinte e poucos anos? Nada é definitivo. Uma profissão, uma carreira, muitas amizades…por que um casamento deveria ser?

Como em tudo, nos iludimos (às vezes conosco mesmos). Somos ingênuos, acreditamos, apostamos…e perdemos. Reconhecer o engano e tentar corrigi-lo não é fácil. Admitir uma mudança, mesmo que necessária, exige que deixemos nossa “zona de conforto” e tomemos uma atitude. Às vezes é preciso ter lançado mão de todos os recursos e atingido o fundo definitivo do poço para que se consiga admitir que não há mais para onde descer e, portanto, é necessário começar a subir.

Quantos relacionamentos serão necessários para que estejamos prontos para um relacionamento definitivo (ou não), depende de cada um. O que sei é que é refletindo sobre nossos erros passados que aprendemos a nos enxergar melhor e a entender se realmente queremos dividir a vida com alguém e quem seria esse alguém.

Acredito que uma pessoa infeliz e sentindo-se presa em uma relação falida não tem condições de ser um pai/mãe plenos. Sei disso por experiência própria. Por que mesmo triste, me sentindo frustrada e com medo de seguir sozinha com uma bebê pequena, eu sabia que só saindo daquele ambiente tóxico que o meu casamento tinha se tornado eu poderia dar o melhor de mim para minha filha. Mesmo que esse melhor fosse ainda pouco e insuficiente. Mas foi somente assim que eu consegui ir reconstruindo pouco a pouco primeiro a mim mesma e depois a minha vida. E assim eu e ela aprendemos a ser mãe e filha. Também nos erros e acertos. Também caindo e levantando. Também recomeçando sempre.

Sei que não sou a melhor mãe do mundo. Essa mãe não existe na prática. Mas sei que hoje minha filha tem de mim a melhor pessoa/mulher/mãe/profissional que já fui na vida. E me esforço para que amanhã ela sempre tenha uma mãe melhor que hoje, afinal essa relação eu sei que é definitiva.

 

Sobre Amantes e Sororidade

Não fui a primeira. E infelizmente não serei a última mulher a ser traída por seu marido. Nunca fui uma namorada ciumenta (juro, acreditava de verdade no caráter do meu ex-marido). Sempre fui, isso sim, uma pessoa apaixonada. E que defendia as pessoas e ideais amados com todas as forças do meu ser. Nunca pensei duas vezes para comprar uma briga que considerava justa. E isso me trouxe várias inimizades, dificuldades e obstáculos. Nunca me arrependi de defender o que acreditava.

O episódio da traição foi mais dolorido por ter ocorrido num período em que me encontrava extremamente frágil – o final da minha gestação e os primeiros dias de vida da minha filha. Descobri a traição (juro que não estava procurando; como disse, confiava cegamente nele), ele confirmou e me contou toda a história por trás naquela que considero uma das piores e mais importantes noites da minha vida.

E assim minha vida se desfez em pedaços. Depois de quase 11 anos de relacionamento com aquele que havia sido meu primeiro e único namorado, eu me via sozinha, com uma bebê recém-nascida nos braços e com uma depressão crônica nunca diagnosticada, e portanto nunca tratada.

Foi por minha filha que consegui retirar forças de onde nem sabia que existia para recolher meus caquinhos e tentar reconstruir uma vida.

E foi por ela também que decidi que não podia ser infeliz. Não queria que ela tivesse uma mãe infeliz. Ninguém merece isso. Minha filha merecia uma mãe inteira, plena, que pudesse dar a ela todo o suporte que precisava. Eu só não sabia onde encontrar essa mãe.

A vida foi muito generosa comigo depois dessa avalanche. Consegui empregos melhores, encontrei um homem maravilhoso com quem depois me casei. Tomei consciência da minha depressão e procurei ajuda. Enfim, aos poucos construí uma nova vida, nova família e aprendi a ser feliz.

No meio de todas essas mudanças, conheci o feminismo. Nunca tinha me preocupado com isso, talvez por culpa da minha mãe que criou a mim e ao meu irmão com iguais oportunidades, deveres e direitos. Nunca fez diferença entre nós. E talvez por isso mesmo eu nunca tenha me sentido menor (intelectualmente ao menos) que nenhum homem. Não que eu não percebesse o machismo ao redor de mim. Eu só não dava a ele a sua devida importância.

Acabei descobrindo quem era a amante do meu ex-marido (não foi muito difícil). Mas nunca cheguei a conhecê-la. Nem nunca quis. Sempre pensei que não valia a pena pois eu já sabia que não era uma pessoa honesta. E sempre tive muito clara a noção de que quem me devia um mínimo de consideração e respeito era o homem com quem estava casada. E foi dele que cobrei isso.

Mas hoje penso diferente. Hoje penso o quanto é importante que as mulheres tenham noção de que essa “rivalidade” entre nós é também produto dessa sociedade machista em que nos inserimos. A mulher que “tira o marido da outra” (coloco entre aspas porque ninguém é dono de ninguém e logo não é obrigado a ficar com ninguém) tende a se sentir poderosa, mais mulher, mais sei-lá-o-que. E também graças a essa sociedade machista, o homem sente-se desculpado para trair livremente pela simples condição de ser homem.

Mas se soubéssemos nos colocar no lugar das outras, se tivéssemos o sentimento de irmandade, de sororidade, uma vez que somos todas (umas mais outras menos, mas sem exceção) vítimas da mesma mentalidade opressora, talvez esse jogo já tivesse mudado.

Se a então amante, hoje nova esposa, do meu ex-marido tivesse se colocado apenas uma vez no meu lugar: casada, grávida, frágil; talvez tivesse tratado meu então marido com o desprezo que sua atitude canalha merecia. Não sei qual a justificativa que ele usava para ela, mas nenhuma podia ser superior ao sentimento de que não era certo enganar uma pessoa nessa situação. E ela teria se negado a sair com ele. E ele talvez fizesse a coisa certa e tivesse coragem de terminar o casamento antes de iniciar outro relacionamento. E talvez eu me sentisse respeitada pela atitude dele e conseguisse perdoá-lo (afinal ninguém tem culpa de se apaixonar por alguém ou de deixar de amar alguém) e talvez pudéssemos um dia ser amigos. E talvez pudesse ser amiga inclusive dessa pessoa por quem ele se apaixonou. São conjecturas, mas o texto é meu e eu conjecturo do jeito que quiser.

Hoje eles têm uma filha juntos. Irmã da minha filha. Uma criança que não conheço e com a qual não terei contato. É muito estranho. E difícil. E me pego pensando como será que ela veria a situação agora, que é mãe de uma menina? Tenho certeza de que não desejaria para a sua filha nada do que eles me fizeram passar. Nem eu desejo. A ninguém. Ao mesmo tempo sei que não é totalmente culpa dela a situação em que me colocou, uma vez que somos todas criadas dentro dessas regras e estimuladas a competir umas com as outras. Não sou melhor que ninguém. Mas eu realmente gostaria que o mundo em que a minha filha crescesse fosse um pouco melhor do que aquele em que eu cresci. E que ela nunca ache que precisa desvalorizar e desrespeitar outra mulher para se sentir plena. E que entenda que unidas somos mais fortes. E que seja feliz.

 

 

Ateísta (não por escolha)

Foi como uma revelação. Ou anti-revelação. Uma epifania.

Um dia comum, voltando do trabalho como todos os outros. E de repente foi como se uma cortina que sempre estivesse estado ali sem que eu percebesse finalmente tivesse se aberto e revelado o óbvio: era tudo mentira.

Eu sempre acreditei em Deus. Desde que consigo me lembrar. Não em um Deus personificado, humanizado. Mas numa força superior e plena de sabedoria e amor que pudesse um dia fazer justiça a todos os seres. Fui católica a maior parte da minha vida. Procurei catecismo, primeira comunhão, crisma…sempre tentando encontrar uma resposta para tudo o que via no mundo. Confesso que a resposta nunca veio. Pelo menos não uma resposta completa.

Conheci outras religiões. Estudei o espiritismo, principalmente. Mas também não conseguia me satisfazer com as respostas oferecidas. Faltava alguma coisa. Mas mesmo faltando algo, nunca me passou pela cabeça duvidar da verdade essencial: que existia um ser supremo e que ele teria todas as respostas.

Voltando à epifania, foi como descobrir que papai-noel é só uma figura inventada para fazer as crianças se comportarem (em troca de um presente). Só que no caso em questão este presente seria o paraíso. E as crianças seríamos todos nós. Ainda hoje me sinto indignada por ter passado mais de trinta anos da minha vida acreditando nessa fábula. Como não vi antes? Também não sei essa resposta. Talvez não estivesse pronta. Talvez não tivesse maturidade suficiente. Talvez não quisesse enxergar. Seja lá qual foi o motivo, me manteve atrás da cortina boa parte da minha vida.

E não foi fácil o processo de me acostumar com a nova realidade. Uma vez retirado o véu, era impossível coloca-lo de volta (eu tentei). Por vários meses me angustiei, chorei, pensei que não conseguiria reencontrar sentido na vida sem o apoio da religião. Foi um período difícil. E talvez por medo de ser julgada, ou por medo de dizer em voz alta o que sentia e tornar tudo ainda mais real (e mais insuportável), eu guardei minhas angústias para mim. Não consegui levar nem para a terapia. Muito assustador.

Mas com o tempo fui percebendo que não havia volta. Era um “point of no return” na minha vida. E com o tempo a ideia foi ficando menos assustadora – talvez porque finalmente algumas coisas começaram a fazer sentido. De verdade. Sem faltar nada. E eu finalmente encontrei algumas das respostas que havia procurado por toda a minha vida até então.

Entendi que nem tudo precisa ter um “por quê”. As coisas simplesmente acontecem. E entendi que a única maneira de tudo isso ser justo, é sendo mesmo completamente aleatório – ou seja, tudo pode acontecer com ou para qualquer um. Não porque fulano merece um câncer, apesar de ser uma pessoa boa e correta, e beltrano não merece, apesar de ser corrupto e cruel. Ninguém merece um câncer (vamos deixar bem claro). Ele simplesmente acontece. Aconteceu com fulano, mas poderia ter acontecido com beltrano também. E para mim, isso só reforça a ideia de que não devemos julgar e que sempre devemos ser solidários. Hoje foi com outra pessoa, amanhã pode ser comigo. Não sei se consigo me fazer entender.

Só de parar de procurar um por quê para tudo e de tentar enxergar a “justiça divina” neste mundo tão injusto eu já consegui aliviar muitas das angústias que carregava na vida. Parei de perguntar “por que comigo?” e passei a aceitar as adversidades como parte da vida. Não só da minha como de todos. E isso nos coloca a todos no mesmo barco. Todos estamos sujeitos igualmente às adversidades e somos todos mais ou menos vulneráveis. Aos menos vulneráveis cabe a missão de aliviar o que for possível aos mais vulneráveis. E assim nos assistirmos uns aos outros na nossa aventura por este planeta que coabitamos.

E sobre o sentido da vida, percebi que é um assunto muito pessoal. O sentido nunca vai ser o mesmo para duas pessoas, pois somos todos diferentes. E aprendi a ir encontrando o meu sentido e a tentar fazer o melhor do tempo que tenho na Terra. Hoje consigo enxergar o privilégio de poder fazer parte, ainda que por um tempo muito pequeno, dessa engrenagem maravilhosa que é o nosso universo. Basta ter a humildade necessária para admitir nossa insignificância. E acredito que haveria menos guerras se as pessoas conseguissem ver a inutilidade e irrelevância delas no contexto do universo. E se mais pessoas tivessem a consciência de que a vida é muito curta pra que se perca tempo com preconceitos, implicâncias e ódio. Somos todos poeira de estrelas. E temos o privilégio de poder ter consciência disso. O que mais podemos pedir?

Então, no fim, considero uma bênção o dia em que tomei consciência das minhas ilusões. E não tenho mais vontade de voltar atrás. A cortina caiu. E o mundo que eu enxerguei atrás dela é muito mais bonito do que eu jamais podia imaginar.