Foi como uma revelação. Ou anti-revelação. Uma epifania.
Um dia comum, voltando do trabalho como todos os outros. E de repente foi como se uma cortina que sempre estivesse estado ali sem que eu percebesse finalmente tivesse se aberto e revelado o óbvio: era tudo mentira.
Eu sempre acreditei em Deus. Desde que consigo me lembrar. Não em um Deus personificado, humanizado. Mas numa força superior e plena de sabedoria e amor que pudesse um dia fazer justiça a todos os seres. Fui católica a maior parte da minha vida. Procurei catecismo, primeira comunhão, crisma…sempre tentando encontrar uma resposta para tudo o que via no mundo. Confesso que a resposta nunca veio. Pelo menos não uma resposta completa.
Conheci outras religiões. Estudei o espiritismo, principalmente. Mas também não conseguia me satisfazer com as respostas oferecidas. Faltava alguma coisa. Mas mesmo faltando algo, nunca me passou pela cabeça duvidar da verdade essencial: que existia um ser supremo e que ele teria todas as respostas.
Voltando à epifania, foi como descobrir que papai-noel é só uma figura inventada para fazer as crianças se comportarem (em troca de um presente). Só que no caso em questão este presente seria o paraíso. E as crianças seríamos todos nós. Ainda hoje me sinto indignada por ter passado mais de trinta anos da minha vida acreditando nessa fábula. Como não vi antes? Também não sei essa resposta. Talvez não estivesse pronta. Talvez não tivesse maturidade suficiente. Talvez não quisesse enxergar. Seja lá qual foi o motivo, me manteve atrás da cortina boa parte da minha vida.
E não foi fácil o processo de me acostumar com a nova realidade. Uma vez retirado o véu, era impossível coloca-lo de volta (eu tentei). Por vários meses me angustiei, chorei, pensei que não conseguiria reencontrar sentido na vida sem o apoio da religião. Foi um período difícil. E talvez por medo de ser julgada, ou por medo de dizer em voz alta o que sentia e tornar tudo ainda mais real (e mais insuportável), eu guardei minhas angústias para mim. Não consegui levar nem para a terapia. Muito assustador.
Mas com o tempo fui percebendo que não havia volta. Era um “point of no return” na minha vida. E com o tempo a ideia foi ficando menos assustadora – talvez porque finalmente algumas coisas começaram a fazer sentido. De verdade. Sem faltar nada. E eu finalmente encontrei algumas das respostas que havia procurado por toda a minha vida até então.
Entendi que nem tudo precisa ter um “por quê”. As coisas simplesmente acontecem. E entendi que a única maneira de tudo isso ser justo, é sendo mesmo completamente aleatório – ou seja, tudo pode acontecer com ou para qualquer um. Não porque fulano merece um câncer, apesar de ser uma pessoa boa e correta, e beltrano não merece, apesar de ser corrupto e cruel. Ninguém merece um câncer (vamos deixar bem claro). Ele simplesmente acontece. Aconteceu com fulano, mas poderia ter acontecido com beltrano também. E para mim, isso só reforça a ideia de que não devemos julgar e que sempre devemos ser solidários. Hoje foi com outra pessoa, amanhã pode ser comigo. Não sei se consigo me fazer entender.
Só de parar de procurar um por quê para tudo e de tentar enxergar a “justiça divina” neste mundo tão injusto eu já consegui aliviar muitas das angústias que carregava na vida. Parei de perguntar “por que comigo?” e passei a aceitar as adversidades como parte da vida. Não só da minha como de todos. E isso nos coloca a todos no mesmo barco. Todos estamos sujeitos igualmente às adversidades e somos todos mais ou menos vulneráveis. Aos menos vulneráveis cabe a missão de aliviar o que for possível aos mais vulneráveis. E assim nos assistirmos uns aos outros na nossa aventura por este planeta que coabitamos.
E sobre o sentido da vida, percebi que é um assunto muito pessoal. O sentido nunca vai ser o mesmo para duas pessoas, pois somos todos diferentes. E aprendi a ir encontrando o meu sentido e a tentar fazer o melhor do tempo que tenho na Terra. Hoje consigo enxergar o privilégio de poder fazer parte, ainda que por um tempo muito pequeno, dessa engrenagem maravilhosa que é o nosso universo. Basta ter a humildade necessária para admitir nossa insignificância. E acredito que haveria menos guerras se as pessoas conseguissem ver a inutilidade e irrelevância delas no contexto do universo. E se mais pessoas tivessem a consciência de que a vida é muito curta pra que se perca tempo com preconceitos, implicâncias e ódio. Somos todos poeira de estrelas. E temos o privilégio de poder ter consciência disso. O que mais podemos pedir?
Então, no fim, considero uma bênção o dia em que tomei consciência das minhas ilusões. E não tenho mais vontade de voltar atrás. A cortina caiu. E o mundo que eu enxerguei atrás dela é muito mais bonito do que eu jamais podia imaginar.