Sobre Amantes e Sororidade

Não fui a primeira. E infelizmente não serei a última mulher a ser traída por seu marido. Nunca fui uma namorada ciumenta (juro, acreditava de verdade no caráter do meu ex-marido). Sempre fui, isso sim, uma pessoa apaixonada. E que defendia as pessoas e ideais amados com todas as forças do meu ser. Nunca pensei duas vezes para comprar uma briga que considerava justa. E isso me trouxe várias inimizades, dificuldades e obstáculos. Nunca me arrependi de defender o que acreditava.

O episódio da traição foi mais dolorido por ter ocorrido num período em que me encontrava extremamente frágil – o final da minha gestação e os primeiros dias de vida da minha filha. Descobri a traição (juro que não estava procurando; como disse, confiava cegamente nele), ele confirmou e me contou toda a história por trás naquela que considero uma das piores e mais importantes noites da minha vida.

E assim minha vida se desfez em pedaços. Depois de quase 11 anos de relacionamento com aquele que havia sido meu primeiro e único namorado, eu me via sozinha, com uma bebê recém-nascida nos braços e com uma depressão crônica nunca diagnosticada, e portanto nunca tratada.

Foi por minha filha que consegui retirar forças de onde nem sabia que existia para recolher meus caquinhos e tentar reconstruir uma vida.

E foi por ela também que decidi que não podia ser infeliz. Não queria que ela tivesse uma mãe infeliz. Ninguém merece isso. Minha filha merecia uma mãe inteira, plena, que pudesse dar a ela todo o suporte que precisava. Eu só não sabia onde encontrar essa mãe.

A vida foi muito generosa comigo depois dessa avalanche. Consegui empregos melhores, encontrei um homem maravilhoso com quem depois me casei. Tomei consciência da minha depressão e procurei ajuda. Enfim, aos poucos construí uma nova vida, nova família e aprendi a ser feliz.

No meio de todas essas mudanças, conheci o feminismo. Nunca tinha me preocupado com isso, talvez por culpa da minha mãe que criou a mim e ao meu irmão com iguais oportunidades, deveres e direitos. Nunca fez diferença entre nós. E talvez por isso mesmo eu nunca tenha me sentido menor (intelectualmente ao menos) que nenhum homem. Não que eu não percebesse o machismo ao redor de mim. Eu só não dava a ele a sua devida importância.

Acabei descobrindo quem era a amante do meu ex-marido (não foi muito difícil). Mas nunca cheguei a conhecê-la. Nem nunca quis. Sempre pensei que não valia a pena pois eu já sabia que não era uma pessoa honesta. E sempre tive muito clara a noção de que quem me devia um mínimo de consideração e respeito era o homem com quem estava casada. E foi dele que cobrei isso.

Mas hoje penso diferente. Hoje penso o quanto é importante que as mulheres tenham noção de que essa “rivalidade” entre nós é também produto dessa sociedade machista em que nos inserimos. A mulher que “tira o marido da outra” (coloco entre aspas porque ninguém é dono de ninguém e logo não é obrigado a ficar com ninguém) tende a se sentir poderosa, mais mulher, mais sei-lá-o-que. E também graças a essa sociedade machista, o homem sente-se desculpado para trair livremente pela simples condição de ser homem.

Mas se soubéssemos nos colocar no lugar das outras, se tivéssemos o sentimento de irmandade, de sororidade, uma vez que somos todas (umas mais outras menos, mas sem exceção) vítimas da mesma mentalidade opressora, talvez esse jogo já tivesse mudado.

Se a então amante, hoje nova esposa, do meu ex-marido tivesse se colocado apenas uma vez no meu lugar: casada, grávida, frágil; talvez tivesse tratado meu então marido com o desprezo que sua atitude canalha merecia. Não sei qual a justificativa que ele usava para ela, mas nenhuma podia ser superior ao sentimento de que não era certo enganar uma pessoa nessa situação. E ela teria se negado a sair com ele. E ele talvez fizesse a coisa certa e tivesse coragem de terminar o casamento antes de iniciar outro relacionamento. E talvez eu me sentisse respeitada pela atitude dele e conseguisse perdoá-lo (afinal ninguém tem culpa de se apaixonar por alguém ou de deixar de amar alguém) e talvez pudéssemos um dia ser amigos. E talvez pudesse ser amiga inclusive dessa pessoa por quem ele se apaixonou. São conjecturas, mas o texto é meu e eu conjecturo do jeito que quiser.

Hoje eles têm uma filha juntos. Irmã da minha filha. Uma criança que não conheço e com a qual não terei contato. É muito estranho. E difícil. E me pego pensando como será que ela veria a situação agora, que é mãe de uma menina? Tenho certeza de que não desejaria para a sua filha nada do que eles me fizeram passar. Nem eu desejo. A ninguém. Ao mesmo tempo sei que não é totalmente culpa dela a situação em que me colocou, uma vez que somos todas criadas dentro dessas regras e estimuladas a competir umas com as outras. Não sou melhor que ninguém. Mas eu realmente gostaria que o mundo em que a minha filha crescesse fosse um pouco melhor do que aquele em que eu cresci. E que ela nunca ache que precisa desvalorizar e desrespeitar outra mulher para se sentir plena. E que entenda que unidas somos mais fortes. E que seja feliz.

 

 

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